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A história de Tuan McCairil


Das lendas celtas da Irlanda
 

Após o fim do cerco e com a amizade estabelecida entre os dois sábios, Finnian instou Tuan para que contasse sua história.


Tuan começou:


─ Sou conhecido como Tuann, filho de Carell, filho de Muredac Red-Neck, e essas terras são herança de meu pai. Não sou tão conhecido pela genealogia de Ulster como devia, embora saiba algo dela. Eu sou sangue de Leinsterman. Sou também de uma longa linhagem e tenho uma honrável estirpe. Na verdade, sou Tuan, filho de Starn, filho de Sera, que era irmão de Partholon.


Finnian interrompeu:


─ Há um erro nessa menção, pois você citou duas genealogias diferentes.


Continuou Tuan:


─ São diferentes mas pertenço às duas.


─ Não entendo!


─ Sou agora conhecido como Tuan Mac Carell, mas nos velhos tempos fui conhecido como Tuan Mac Starn, filho de Sera.

─ O irmão de Partholon, o santo disse.


─ É minha linhagem.


─ Mas Partholon veio para a Irlanda não muito depois do dilúvio.


─ Vim com ele, disse Tuan meigamente.


O abade puxou sua cadeira para trás apressadamente e encarou Tuan, e seu sangue gelou nas veias. Mas logo se recompôs. Pensou no poder de Deus e ficou sossegado. Era um dos que amavam Deus e a Irlanda, e deu à pessoa que podia instruí-lo nesses grandes temas todo o interesse de seu espírito e a simpatia de seu coração:


─ É uma maravilha o que me diz, meu querido. Conte-me, deve me contar. Fale-me do começo da Irlanda e da vinda de Partlholon, filho de Noah.


─ Tinha quase me esquecido dele. Barbas espessas, ombros extremos, um homem de atos e maneiras doces. Ele veio para a Irlanda em um navio. 24 homens e 24 mulheres vieram com ele. Antes dele nenhum homem tinha pisado a Irlanda, e no Ocidente nenhum ser humano vivia. Quando viemos para a Irlanda pelo mar, o país parecia uma infindável floresta. Em qualquer direção e até onde os olhos alcançassem só havia árvores. Só se ouvia uma incessante cantoria de pássaros. Por todo o país o sol brilhava, quente e belo, e para nossos olhos cansados do mar, nossos ouvidos perturbados com as tormentas, parecia que chegávamos ao paraíso.


Aportamos e ouvimos o rumor das águas murmurando entre as sombras da floresta. Seguimos a água e chegamos a uma clareira onde o sol brilhava e onde a terra era aquecida. Ali Partlholom descansou com 24 casais e fez uma cidade. Havia peixes nos rios de Eire, animais nos seus esconderijos. Criaturas selvagens e monstruosas rugiam em suas campinas e florestas: ursos, lobos, veados, javalis, texugos. A gente de Parholon aumentou, d e24 casais a Irlanda passou a cinco mil pessoas. Viviam em amizade e alegria embora não tivessem conhecimento.
Conhecimento!
Não precisavam.


Ouvi dizer que o primeiro que nasceu não tinha espírito... Continue, continue sua história meu querido.


Subitamente, como uma rajada de vento entre a noite e a manhã, chegou uma doença que inchava o ventre e a pele ficava toda vermelha. Depois de dezessete dias todo o povo de Partholon morreu. Só eu sobrevivi.


Tuan levou a mão à fronte e relembrou os velhos tempos, retrocedeu a inacreditáveis idades, ao começo do mundo e aos primeiros déias de Eire. Finnian sentiu novamente o sangue gelar nas veias, e retrocedeu no tempo junto com o narrador da espantosa história:


─ Continue, continue meu querido.


─ Vi então Nemed o filho de Agnoman chegar à Irlanda com uma frota de trinta e  quatro barcos, em cada um havia trinta casais.


Já ouvi sobre isso, já ouvi...
Meu coração saltou de alegria quando vi a grande frota rondando a terra. Segui-os ao longo dos penhascos, saltando de rocha em rocha como uma cabra selvagem. Os navios singravam procurando um porto. Parei para beber em uma lagoa e me vi na água gelada. Meus cabelos estavam enormes e emaranhados como um javali selvagem. Estava curvado como um arbusto depenado; mais grisalho que um texugo, debilitado e  enrugado como um saco vazio; nu como um peixe; miserável como um corvo faminto no inverno; tinha garras curvas nos dedos dos pés e das mãos. Eu estava irreconhecível perante mim mesmo e o homem que eu tinha sido já não existia. Sentei na beira da lagoa chorando minha solidão e selvageria e minha decrepitude. Não fiz mais que chorar e lamentar entre a terra e o céu. As bestas que rondavam por ali me ouviam ou esticavam-se entre os arbustos para me espionarem de seus esconderijos.


Uma tempestade abateu, e quando novamente olhei do alto do penhasco vi a grande frota envolta em meio a grandes ondas como agarrada em mãos gigantes. Os barcos eram jogados contra o céu baixo e cambaleavam arremessados para o alto rodopiando entre o vendaval como folhas levadas pelo vento. Eram lançados dessa vertiginosa altura para baixo, um abismo de lamento, ao clarão de espuma, negro horror que girava e rodopiava entre as ondas. Uma onda saltou uivando sobre um navio, e o atirou para o alto com um golpe, e o arrebatou no ar com um estrondo. Outro navio foi engolido pelas ondas; outro descia e subia dançando alucinado  entre as ondas até que foi estraçalhado contra as rochas e engolido.


A noite caiu terrivelmente como cortina negra que desce do céu.Criatura da noite alguma podia penetrar aquela enorme escuridão. Nem criatura alguma ousava rastejar ou sair do lugar. Pois um grande vendaval cortava e açoitava uivando.


Da completa escuridão e rumor lamentoso do mar veio um som, fraco, como se estivesse a milhares de milhas dali. Era distinto como se pronunciado ao ouvido num sussurro de confidencia. Percebi que um homem estava se afogando e chamava por seu deus enquanto era açoitado no silencio. Uma mulher estava chamando por seu homem com seus cabelos esparramados sobre o rosto.


Ao meu redor as árvores eram arrancadas da terra com uivos de morte; saltavam  para o ar e voavam como pássaros. Grandes ondas zuniam no mar, enrolavam-se sobre os penhascos e desabavam com violência na terra em coágulos de espumas monstruosos. As rochas vinham rolando e espatifando- se entre as árvores. No meio daquela fúria e daquele horror eu caí vencido pelo sono.


Sonhei, me vi transformado em um veado no sonho e senti bater um novo coração em mim. No sonho curvei meu pescoço e me apoiei em meus fortes membros. Acordei e acreditei que tinha sido apenas um sonho. Mas eu tinha de fato me transformado em veado. Fiquei um tempo sobre a rocha, com minha cabeça esticada oscilando para o alto, respirando por minhas largas narinas todos os aromas do mundo. A minha decrepitude tinha miraculosamente se transformado em incrível vigor e força. Eu tinha quebrado os laços da idade e estava de novo jovem. Cheirei a erva e senti pela primeira vez como era doce aquele cheiro. Meu nariz movia-se farejando todas as coisas em meu coração e separava tudo em meu conhecimento.


Assim permaneci longo tempo, tocando meu chifre de ferro nas pedras e aprendendo tudo por meu faro. Cada brisa que vinha da esquerda ou da direita contava-me uma história. O vento trazia-me o cheiro de um lobo, e contra o cheiro eu estacava e assinalava. Outra brisa trazia o aroma de minha própria raça, e eu respondia balindo. Ah, alto e claro e doce era a voz daquele grande veado. Com que facilidade minha nota amorosa ia cantando no ar! Com que alegria eu ouvia a respostas me chamando! Com que gosto eu me atirava indo, indo , indo, leve como a pluma de um pássaro, poderoso como  uma tempestade, infatigável como o mar!


Era fácil pular e saltar dez jardas, com a cabeça oscilando, com o descer de um mergulho, com a curva e o vôo e a velocidade de uma lontra do mar. Como meu coração se excitava, como estremecia com o giro das pontas afiadas de meus chifres! Como era novo o mundo! Como era novo o sol! Como o vento me acariciava!


Com a testa reta e olhos firmes encarava tudo que vinha. O velho, solitário lobo pulava no caminho do meu lado, rosnava e fugia. O urso movia-se balançando a cabeça com hesitação; avançava seu pequeno olho vermelho. Os veados de minha raça fugiam de minha testa ou recuavam até suas pernas  arriarem e eu os esmagava. Eu era o bem-amado, o famoso, o líder de todo o rebanho da Irlanda.


Depois meu coração me arrastou para o Ulster; meu nariz sentiu o ar, e soube com alegria, com terror, que homens vinham. Uma cabeça orgulhosa ergueu-se então de entre a relva, e as lágrimas da lembrança rolaram de meus grandes e brilhantes olhos.


Eu me aproximei, silenciosamente, entre as espessas folhas e me insinuava entre os arbustos. Parei e chorei quando vi homens. Nemed e quatro casais tinham escapado da tempestade violenta. Tinham aumentado e multiplicado seu número. Somavam nesse tempo quatro mil casais. Viviam alegres e se divertiam ao sol. O povo de Nemed tinha espírito pequeno mas eram muito ativos. Eram lutadores selvagens e caçadores.


Certa vez, vim arrastado pela insuportável angústia da lembrança, e todo aquele povo tinha ido. A luta que conheci estava em silencio. Não havia mais ninguém na terra onde tinham vivido, apenas ossos que brilhavam ao sol.


A velhice me atingiu. Entre aqueles ossos arrastei sobre meus membros fracos. Minha cabeça tornou-se pesada, meus olhos ficaram cegos, meus joelhos trêmulos. Ali os lobos ficariam encorajados a fazerem de mim uma presa. Voltei para a caverna onde vivi quando era um homem velho.


Os lobos me cercavam e me encerrei na caverna. Um dia me arrastei cuidadoso para apanhar um punhado de grama. Investiram contra mim e foi com dificuldade que escapei. Eles ficaram de espreita à porta da caverna. Eu conhecia o idioma que falavam. Sabia tudo que diziam entre si. Ainda tinha um pouco de força e solidez em meus chifres. Não ousariam entrar na caverna.


Disseram:
─ Rasgaremos sua garganta e roeremos suas ancas.


Compreendi tudo que podia acontecer comigo: Amanhã sairei e morrerei entre suas mandíbulas, disse para eles. Os lobos uivaram famintos e impacientes. Dormi, e me vi em sonho transformando- me em Javali. Senti em meu sonho um novo coração pulsar em mim, estiquei meu poderoso pescoço e me firmei em meus membros fortes. Acordei e era o javali que tinha sonhado.


A noite se foi, a escuridão esvaeceu, o dia veio. Os logos gritaram: Venha para fora. É sua hora de morrer! Eu, como o coração saltando de alegria, confiante, surgi na entrada da caverna. Quando viram meu focinho agitado, minhas presas curvas, meus olhos vermelhos e ferozes, os lobos fugiram ganindo, trombando entre si, frenéticos de terror. Arremeti atrás, com um pulo selvagem, um gigantes de força, um demônio de ferocidade, um louca e jubilosa fortaleza, uma vida pródiga e inexorável, um matador, um campeão, um javali que não podia ser derrotado.


Tornei-me senhor dos javalis da Irlanda. Onde fosse era amado entre a minha tribo e todos me obedeciam. Onde fosse, os estranhos fugiam. Os lobos me temiam; me temia o grande, cruel, inamistoso urso, de andar lento sobre suas patas pesadas. Eu o assaltei à cabeça de meu bando e me engalfinhei com ele repetidamente, mas não era fácil mata-lo, tão profusamente enfardado em sua pele fedorenta. Ele escorregava e corria, e era nocauteado e corria às cegas, trombando  em árvores e pedras. Nem garras, nem presas ele mostrava enquanto corria desabalado, ou enquanto agarrado com meu nariz enterrado em sua boca, rosnando contra suas narinas.


Desafiei todos. Menos um. Homens tinham chegado à Irlanda. Samion, filho de Stariath, com seu povo, de quem os homens de Domnann e os Firbolg descendem. A esses não persegui, e quando me caçaram fugi.


Frequentemente eu era arrastado por minhas lembranças, a olhar enquanto eles iam pro seus campos. Em meu espírito falava com amargura: Quando o povo de Partlholon reunia-se em conselho minha voz era ouvida. Era doce a todos ouvir-me, minhas palavras eram sábias. Os olhos das mulheres brilhavam quando olhavam para mim.


A velhice novamente me atingiu, Meus membros ficaram fracos, e a dor entorpecia meu espírito. Fui para meu Ulster e sonhei, em meu sonho eu me transformava em um falcão.


O doce ar era meu reino, e meus olhos brilhantes alcançavam  cem milhas. Voava nas alturas abissais, arremetia para baixo, ficava e dormia em paz, e tinha minha porção de doçura da vida. Durante esse tempo Beotthach, filho de Iarbonel, o Profeta, chegou à Irlanda com seu povo. Houve uma grande batalha entre seus homens e os filhos de Semion, assisti, pairado sobre o abismo, cada lança que debatia, cada pedra que zunia da funda, cada espada que relampejava no ar e o infindável cintilar dos escudos. E no fim vi que a vitória estava com Iarbonel. Dele veio o povo erudito de Tuatha de Danna, embora sua origem tenha sido esquecida. Por sua excelência em sabedoria e inteligência é que se diz que vieram do céu.


Esses são os seres encantados. Todos são deuses.
Longos anos vivi como falcão. Conhecia todos os montes e correntes, todos os campos e vales da Irlanda. Conhecia a forma dos penhascos e da costa, e como todos os lugares olhavam de baixo o sol e a lua. E eu ainda permanecia falcão quando os filhos de Mil mandaram os Tuatha de Danna par aos subterrâneos e defenderam a Irlanda contra os invasores e a magia. E foi então a vinda dos homens e o começo da genealogia. 


Envelheci. Em minha caverna do Ulster próxima do mar eu sonhe, e em meu sonho me transformei em salmão. As correntes do oceano me arrebataram a mim e meu sonho, mergulhei no mar e acordei nas águas profundas, e eu era um salmão como tinha sonhado. Tinha sido um homem, um veado, um javali, um pássaro e agora era um peixe. Em todas as minhas transformações tive alegria e plenitude de vida. Mas na água a minha alegria era mais profunda, e a vida mais intensa. Pois na terra ou no ar há sempre algo excessivo e embaraçoso; os braços ficam nas laterais de um homem; o veado tem pernas que ele dobra, recolhe para dormir e desdobra para mover-se; o pássaro tem asas que devem fechar-se e abrir para voar. Mas o peixe é uma peça só de seu nariz à cauda. Ele é completo, único e desembaraçado. Desliza, vira e revira, nada para o algo, desce e circula num único movimento.


Como voei no macio elemento! Como me alegrei nessa região onde não há aspereza! Nesse líquido que sustém as asas e abre caminho, que acaricia e deixa ir, e não deixa você cair. Um homem pode tropeçar nos sulcos, o veado desabar de um penhasco, o falcão pode ser derrotado se suas asas estiverem fracas; com a escuridão ao seu redor e a tempestade que ameaça às suas costas, pode esmagar a cabeça em uma árvore. A casa do salmão é sua delícia, e o mar guarda todas as suas criaturas.


Tornei-me o rei dos salmões, e com meu cardume naveguei as correntes do mundo, Distancias acima e abaixo de mim, verde e púrpura, ouro e verde, a superfície translúcida iluminada pelo sol. Nessas latitudes eu me movia num mundo de âmbar, eu mesmo âmbar e dourado; num luminoso e cintilante azul, eu curvei, iluminado como uma jóia viva; nesse oceano, ébano fosco todo atravessado de prata, eu brilhava e me destacava, a maravilha do mar.


Conheci o grande mar, as cavernas secretas onde o oceano ruge, os icebergs flutuantes, as correntes quentes nas quais somos levados adiantes, Nadei na orla do grande mundo, onde nada havia senão mar e céu e o salmão; onde mesmo o vento era silencioso e a água era clara como um rolha branca e limpa.


Distante nessa regiões marinhas, me lembrei do Ulster, e voltei ansioso para o meu lar, Nadei dias e noites incansavelmente, jubilante, com o terror acordando em mim e dizendo a mim que eu devia alcançar a Irlanda ou morrer.


Ah, como o fim da viagem foi difícil! Uma doença atingiu meus ossos, um langor e fraqueza percorria cada fibra de meu corpo. As ondas me empurravam para trás; as doces águas pareciam ter endurecido. Era com se eu tentasse atravessar uma rocha na minha luta para chegar ao Ulster.


Estava tão cansado! Podia me espedaçar e ser arrastado. Podia dormir e ser impelido pelas águas. Apenas o coração invencível do  salmão podia enfrentar o fim daquela fadiga. Ouvi o som dos rios da Irlanda correndo para o mar no último instante de meus esforços. Meu amor pela Irlanda me manteve. Os deuses dos rios me impeliram, até que saí do mar por fim e me deitei em águas doces na curva de uma rocha, exausto, com três partes de mim mortas, mas triunfante.


A alegria e a força voltaram, e então explorei os caminhos no interior da terra, os grandes lagos da Irlanda e seus rios velozes. Que alegria ficar à flor da água tomando sol, ou ver pequenas criaturas deslizarem velozes como relâmpagos que cortam as águas! Vi o falcão pairar e estacar, descer vertiginoso como uma pedra em queda, mas ele na pôde apanhar o rei dos Salmões. Vi os olhos frios de um gato esticando suas garras na superfície da água, águias que agarravam e levavam as criaturas do rio. E vi homens.


Também eles me viram. Sentaram-se na base de uma cachoeira da qual eu pulava com um cintilar prata. Eles lançaram rede para me apanhar. Fizeram cordas da cor da água, da cor de algas. Escapei.  Todas as bestas me perseguiram nas águas, lontras, o gato selvagem, o falcão e outras aves mergulhavam para me apanhar; os homens procuravam me enredar em suas redes, eu não tinha descanso. Minha vida tornou-se uma fuga incessante, uma carga de dores e vigilância, até que fui apanhado.


O rei do Ulster me apanhou em sua rede. Ah, era um homem feliz quando me viu. Gritou de alegria quando notou um grande salmão em sua rede. Eu estava ainda na água enquanto ele me arrastava delicadamente. Estava ainda na água quando ele me puxava para a margem. Meu nariz tocou o ar e me desviei como se desvia do fogo, e lutei com todas as minhas forças contra o fundo da rede, me agarrando ainda à água, amando-a, enlouquecido de terror. Mas a rede ergueu-se e eu vim a tona.


─ Fiquei quieto, rei do Rio, disse o pescador.
Estava exposto ao ar, isso era como estar no fogo. O ar me pesava como uma montanha ardente. Ele me escamou, me escaldou e chamuscou. Me pesou e me apertou. Meus olhos queimavam, com minha cabeça parecia que ia saltar e meu corpo parecia que se partia em mil pedaços. A luz me cegou, o calor me atormentava, o ar seco me fez enrugado e arfante. Enquanto estava na relva, pulei desesperado, procurando uma vez mais o rio, pulei mesmo sob a montanha de ar sobre mim. Podia pular para cima mas não para adiante, e mesmo assim pulava, pois em cada subida eu podia ver as ondas cintilantes, o ondular curvo das águas.


Esteja quieto, rei, disse o pescador, fique em sossego, meu querido. E enquanto me carregava para o palácio, ele cantava par a o rio. Era uma canção de louvor ao rei das águas.


Quando a esposa do rei me viu, me desejou. Me levaram ao fogo e fui cozido, ela me comeu. O tempo passou, ela me deu à luz, eu era o filho de Carell, o rei. Lembro do lugar aquecido e escuro, dos movimentos e dos sons que eu ouvia, de tudo que aconteceu, desde o tempo em que eu estava na grelha até a hora em que nasci. Nada esqueci. 


Essa a história de Tuan Mac Carell.
Ninguém sabe se ele morreu naqueles distantes dias quando Finnian era abade de Moville ou se ele ainda mantém sua fortaleza no Ulster, vendo todas as coisas e relembrando- as para  glória de Deus e a honra da Irlanda.
 
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Categoria: Celtas | Visualizações: 166 | Adicionado por : Bruxaria | Tags: Lendas, Celtas, Mitologia, Divindades | Ranking: 0.0/0
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